domingo, 5 de dezembro de 2010

Na cadência do samba

Como todo domingo, religiosamente, parava no bar. Sentava-se na mesma mesa de sempre e pedia uma cerveja. E o samba começava a ecoar pelo local, para a alegria de mulatas rebolando e alguns malandros sambando.

E logo chegava sua cachaça - com o limãozinho, senão faz mal -, um torresmo de tira-gosto. Para alguns, procurava no fundo do copo o fundo do poço, mas tudo o que procurava era uma razão para viver. Uma das boas, não uma qualquer. E o samba, a cachaça e o cigarro eram uma mistura não das mais saudáveis, mas daquelas que vale a pena seguir.

Maria, sua mulher, já estava cansada da vida boêmia do marido, assim como Aurora, sua filha. Mas ambas eram maiores de idade e vacinadas, trabalhavam e poderiam se sustentar.

A morte chega para todos, é fato. Mas não pode-se saber a hora nem o dia, apenas aproveitar o tempo que resta antes que ela chegue.

E no caso, já estava esperando ali. O pandeiro, o violão, o cavaco. O samba em sua cadência, a cuíca chorando e o coro das pessoas cantando. Tomou sua última dose da branquinha, fez careta e comeu um torresmo. Sorriu. Isso sim era felicidade. Só que começou a sentir aquela coisa no peito, quando caiu da cadeira chamou a atenção de alguns. Todos pararam. O samba silenciado, menos a cuíca, que continuava chorando a perda de seu amante.



(Baseado na música de mesmo título.)

3 comentários:

barbaranonato disse...

Ficou um texto muito bonito. Como se a cadência do samba estivesse mesmo nele...
Gostei!

deborahtabosa disse...

Goooostei ;D mt bom msm

@naochupamanga disse...

Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba!
Amei o texto, define muito bem o que diz a letra, porém com grande propriedade!