terça-feira, 4 de maio de 2010

O Esquerdista.

Muita coisa muda quando se atravessa sete décadas, sendo que metade da última a vida começava a lhe fugir.

Já havia alguns meses que estava apodrecendo naquela cama de hospital, tudo em conta de um maldito câncer. Era preciso se contentar apenas com suas lembranças em seus momentos de lucidez.

Diogo Marques Vasconcelos, mais conhecido como "Digão" em seu tempo de mocidade. Relembrava toda a sua ideologia política.

Digão havia sido forte líder estudantil na época da ditadura militar, sendo detido algumas vezes antes de ir exilado para Cuba na década e 1970.

Quando a repressão havia diminuído, a Lei da Anistia proclamada, pôde finalmente voltar para sua pátria amada e idolatrada como professor de filosofia.

Quando a ditadura acabou, Digão Marques, como era conhecido dentre os meios acadêmicos e boêmios, usava a camisa do Che ao dar aulas. Conheceu Sandrinha nas rodas intelectuais, mulher com quem viveria junto por um bom tempo.

Colocou a estrelinha do PT nas eleições de 1989, depois daquele debate mal editado favorecendo o Collor passou quase 10 anos sem assistir um programa sequer da Globo, além de ter pintado o rosto de verde e amarelo e saído às ruas.

Já pelo ano de 2005 a camisa do Che só possuía o buraco da estrelinha do PT, a maior decepção que Digão teve por toda a vida. Foi mais ou menos nesta época em que o maldito câncer começou a se desenvolver.

No hospital, lembrava-se de tudo o que havia passado na sua vida, sempre balançando a bandeira vermelha. Via-se perto da morte. Nem Marx, nem Nietzsche, nem mesmo o médico poderia fazer alguma coisa que não fosse apenas drogá-lo para que não sentisse dor.

Era estranho a visão de mundo quando se estar com o pé na cova. Digão havia sido um grande esqerdista, mas jamais se envolveu como político, se aposentara como professor universitário.

Sentiu-se numa corrida de Fúrmula 1, onde todos os carros estão a centenas de quilômetros por hora quando o seu carro estanca e não quer mais pegar.

Lembrou-se que, quando seu pai morreu, disseram-lhe: "A vida continua". Digão morreria, apesar de não estar conformado, já sabia disso. Mas seu egoísmo falava mais alto. Não queria morrer, não queria que a vida continuasse sem sua presença.

Queria ver uma Esquerda de verdade tomar o poder, queria ver os grandes acontecimentos do mundo, queria ao menos terminar de ler o livro que deixara pela metade quando tinha seus quinze anos.

Era preciso engolir todas as suas frustração, já era tarde demais para utopias.

4 comentários:

GT disse...

muito bom o blog...

Eduardo disse...

Depois de tantas frustrações, pergunta-se, respeitosamente:

Quando veremos os grandes acontecimentos do mundo? Com a DIREITA, com a verdadeira ESQUERDA?

UTOPIA mesmo é acreditar em uma mudança que venha de fora para dentro...

Até...!!!

Arthur D'mello disse...

muito bom o texto,
umas alusões a realidade bacanas :D


http://www.sintoonize.com/

cachorro idiota!!! disse...

A brasileira esquerda nasceu com valores de solidariedade, igualdade e socialização das riquezas.
Hoje quem usa a camisa do Che, nem sabe o que ele fez....
E ninguem vive pra sempre, nem o Digão